A Ilha Dos Antigos Mistérios – Capítulo I – Ep. 3 A Casa Ilhada


 Por Paulo Queiroz

“... Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.”
– Dante Alighieri

Dei um passo para traz e com o coração palpitando novamente no jugular e nos apresentei, sem forças nas pernas.

- Mi-Miguel - gaguejei. - Este é o Guilherme... – trouxe o Guil para perto de mim.

- Que lugar é este? O que fazem aqui? – meu medo quanto àquele estranho amenizou-se a partir do momento que ele transpareceu estar tão perdido e amedrontado quanto eu.
 
- Se souber, por gentileza, diga-nos – afrouxei o Guil dos meus braços, coitado.

- E quem é você? Como chegou aqui? – questionei-o, desnorteado.

- Isso é algum reality show?! Que brincadeira é essa, hein?! – repentinamente o homem exasperou-se, aproximando-se de nós, com olhos esbugalhados e inquisidores.

- Eu não sei, cara! Eu não sei. Esse lugar estranho, o irmão de minha amiga. O que está acontecendo?! – aquilo foi o estopim.

- Meu Deus... – sua voz tremulava enquanto ele andava de um lado para o outro, quando parou. -  Pedro. Meu nome é Pedro – apertamos as mãos.

- Como veio parar aqui? – perguntei-lhe novamente.

- Não sei ao certo. Eu estava... Sei que surgi dentro dessa casa e pensei que haviam me enterrado vivo. O cheiro pútrido misturava-se com a maresia; ouvi falas quando me aproximei da porta. Saí e vi uma praia. Deus... E... – ele esforçava-se para se lembrar da sucessão de fatos, mas se enrolava.

- Comigo também foi assim... Ao invés de ouvir conversas, ouvi o Guil mergulhando, sem saber que era ele. Até agora ele não me disse como chegou aqui.

- Por que o céu está assim? – Pedro indagou-me enquanto observava o céu.

- Não sei, sinceramente. Desde que cheguei ele está assim... – ele voltou seu olhar para mim, com temor.

- Espera... – um choque atravessou todo meu corpo – você está usando as mesmas roupas e os mesmos sapatos que nós! – fiquei boquiaberto. Ele puxou a camiseta, olhou para nós – eu e o Guil -, e de olhos arregalados iria falar algo, quando alguém se adiantou.

- Quem são vocês? – uma voz púbere e calma de um rapazote diluiu nossa iminente síncope coletiva.

Viramos-nos, porque vinha de trás de nós. Ele trajava a mesma roupa, os mesmos sapatos. O que está acontecendo?

- Guilherme... – disse Guil igualmente calmo.

Não o respondi, indo para o lado do Pedro; questionei:

- Quem é você?

Pedro apresentou-se ao mesmo tempo.

- Pedro – apertaram as mãos, encarando-se.

- Sou o Rafael – expressou um sorriso.

- Miguel... – apertei sua mão.

- Não perguntarei como chegou aqui, porque ao que me parece, estamos todos no mesmo “barco” – fiz aspas no ar.

- Tentei voltar para dentro da casa, mas não consegui. A porta só abre por dentro, acho. – atalhou Rafael.

Eu e o Guilherme estávamos ilhados com dois estranhos, sem saber onde, como e por que aquilo tudo. Retrocedi aos questionamentos milenares da Filosofia Antiga que transcenderam o tempo: de onde viemos? Quem somos? Para aonde vamos? As perguntas não obtinham respostas plausíveis, pelo contrário, levantavam-se outros por quês.

- Olhem! – Pedro chamou-nos a atenção. – O mar baixou! Vamos até o outro lado? – convidou-nos, já pulando para o piso de areia. Aquele lado não perecia fundo e a ilhota ficava num planalto.

A procrastinação da natureza em determinar dia ou noite, neste ínterim, acabou. A iluminação do Sol em todo o seu furor trespassava as densas nuvens grafite, ofuscando-nos. Elevei a mão aos olhos, semicerrando-os, avistei o horizonte sob uma cortina delicada de chuva. Uma aurora triunfal, digna daqueles panfletos que os cristãos distribuem com trechos da Bíblia Sagrada. Lindo. Em meio a toda aquela confusão, eu sorri. Ficamos ludibriados, principalmente, porque, à direita, havia uma ilha imensurável, donde se erguiam coqueiros e outras espécies de árvores desconhecidas, com uma vasta margem de areia fina e amarelada. E eu não havia notado até então.

Os cantos alternados dos pássaros estavam em orquestra. Caminhávamos silentes por onde há pouco o espelho azul d’água compunha. Perscrutei todo o dique e estagnei quando vi mais pessoas nele. Pescando? Corri, puxando o Guil e os outros nos seguiram.

Quase caí sobre os pedregulhos afiados, sobre conchas das mais variadas formas, cores e tamanhos. Seria uma lesão feia. Lorena?!

- Lorena?! – corríamos confluindo para o mesmo lugar.

- Marcelo?! – surgira, vindo da ilha.

- Rafael?! – exclamou Marcelo. Eles se conhecem?

- Miguel? – a Lorena e o Marcelo falaram simultaneamente, arfando, com as mãos nos joelhos.

- Lorena... – disse Guil, indo para perto dela.

- Como...? – não sei se fiquei desesperado ou feliz ao vê-los.

A morena Isabele, de olhos risonhos e sorriso alinhado, juntamente ao Tiago, que estava com a camiseta vermelha no pescoço, tão magro quanto eu, chegaram. Eram eles que estavam pescando, mais a Giovana e o retardado do Henrique. O que me confundiu ainda mais. Eles não se conheciam, evidentemente; e a Giovana não falava com o Henrique, ambos não conheciam o Tiago e a Isabele. Como e por que estavam juntos?

Todos se cumprimentavam com abraços e aperto de mãos. Só eu que parecia não fugaz à nossa realidade. Permaneci sério, olhando o mar quebrando no dique à frente.

- Esperem, esperem – fui para o meio do grupo. – Como chegaram aqui? E por que eu não os vi logo?

- Eu vim há muito pela aquela casa – Isabele apontou donde viemos e continuou, com todos atentos ao que ela dizia. – Não sei como. Ai, horrível aquele lugar. Nunca me senti tão estranha... – fez careta, abraçando a si mesma. O Tiago abraçou-a.

- Todos vieram de lá, então? – perguntei, olhando a minha volta e todos assentiram com a cabeça.

- Santo Deus... – me senti desesperançado.

- Mih?! – uma voz conhecida gritou. Voltamos nossos olhos para a Nicole e sua irmã Natália que viam correndo pelo mesmo caminho que nós.

- Cuidado! – instintivamente fiz como se fosse segurar a Nick, que quase caia sobre as conchas. Fui para perto delas, seguido pelos outros.

Dei um abraço demorado e asfixiado na Nick e, depois, na Nat. Já esquecera o quão bom era estar com elas, o quanto me faziam bem. Uma paz temporária instaurou-se no âmago do meu consciente. Na verdade, fiquei exortado. 

Estava com alguns de meus amigos e dois estranhos. Sem preocupações, senão as “filosóficas”, naquele paraíso natural, nada mais poderíamos querer. Mas infelizmente essa paz repentina não foi duradoura.

- Aquela casa... – falou a Nick angustiada.

- Viemos de lá – completei.

A Lorena abraçava a Nick, a Nat; depois a Nick abraçava a Giovana e o Henrique. Parecíamos uma equipe de jogos em um acampamento de férias, trajando as mesmas roupas.

- Estou com fome – meu estômago rosnou.

- Pegamos peixe, Mih – disse-me a Isabele.

- Sushi? – brinquei para nos afastarmos um pouco da tensão.

- O Tiago fez fogo com aquelas madeiras. E pensar que as aulas sobre a Pré-História vir-nos-ia a calhar... – complementou Bele.

- Um feito! Nesse vento incessante, viu? – ressaltei.

Abraçado com a Nat e a Lorena, que abraçava a Nick e a Nat abraçava o Marcelo, que abraçava o Guil, fizemos um verdadeiro cordão humano de fraternidade. Era o que tínhamos de melhor: uns aos outros.



            Continua...



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